sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Respondendo sobre a história da Bonde.


Santa Teresa
Rio de Janeiro (RJ)


(1896.09.01)
Blickpunkt StraßenbahnLafexNetcardPhotophilia

Empreza de Carris de Ferro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, entra ao serviço, ainda com carros puxados por mulas, em 25 de maio de 1875, numa linha ao longo da rua de Riachuelo.
Em 13 de março 1877 é criado o plano inclinado de Santa Teresa, entre Riachuelo e o largo dos Guimarães, em Santa Teresa, bem como o serviço de bondes no bairro. Estes são puxados por mulas e correm sobre carris (914 mm de bitola) implantados nas suas ruas empedradas, levando os passageiros tão longe como o Silvestre.
Reprodução de bonde puxado por mulas (1875) em exposição no Museu dos Bondes de Santa Teresa
Companhia Ferro-Carril Carioca, criada em 1891, faz passar sobre o largo da Lapa - pelo antigo aqueduto agora transformado em via exclusiva para os bondes -, no dia 1 de setembro de 1896, o primeiro bonde elétrico de Santa Teresa ligando a colina de Santo António, no Largo da Carioca, no centro do Rio, ao Largo do França, em Santa Teresa; no dia de Natal o bonde vai até à Lagoinha; e em 25 de fevereiro de 1897 o bonde elétrico vai até ao Restaurante do Silvestre, junto à linha do trem de cremalheira que liga o Cosme Velho ao Corcovado, e que havia de arder em 1934. A linha é prolongada, a partir do largo dos Guimarães até Paula Mattos em 23 de junho de 1897. Em 25 de abril de 1906 é aberta uma nova linha para o Sumaré: são construídos os primeiros 5 dos 18km planeados - em plena floresta da Tijuca! A linha chega a atingir a cota de 705m mas não há registos de ter havido circulação de bondes até tal ponto. As adversas condições climatéricas da zona não só danificam inúmeras vezes a linha de transmissão elétrica, como acabam por determinar o permaturo encerramento da linha por volta de 1912. E, finalmente, em 1926 é instalada a linha que desce a rua Francisco Muratori até à rua  Riachuelo, criando aqui um ponto de ligação entre o sistema de Stª Teresa e o restante sistema de bondes do Rio de Janeiro, tornando assim desnecessário o plano inclinado, que é então desativado e desmontado.
Arcos da LapaArcos da Lapa em 1906
Os Arcos da Lapa no início do século.
Repare-se no bonde de Stª. Teresa sobre os Arcos e, passando por baixo, um bonde a burro (à esq., foto de A. Malta) e um elétrico da Companhia de Carris Urbanos (à dir., foto de 1906).
Foto in A Ilustração Portuguêza, 1909, coleção deÁlvaro DiasFoto coleção Allen Morrison
À parte a linha do Sumaré, a estrutura da rede mantém-se até 10 de janeiro de 1966, quando fortes chuvadas põem o sistema fora de serviço, destruindo igualmente parte da linha até ao Silvestre - levando os trilhos pela barreira abaixo. O sistema é restabelecido em abril, mas as ligações ao Silvestre e a Riachuelo não chegam a ser restabelecidas. Os trilhos são mantidos no pavimento; no caso de Francisco Muratori, na década de 90 eles são removidos na sua quase totalidade; no caso do Silvestre, eles são cobertos por sucessivos recapeamentos da estrada.
Diagramas frontais dos atuais bondinhos de Stª. Teresa
É em 1916 que o sistema de Santa Teresa atinge o seu auge: 35 carros, 15 dos quais em circulação permanente, ligando o bairro ao centro da cidade!
Para referir a importância dos bondes nestes anos já distantes, basta referir que, em 1920, foi construído um carro-salão especialmente para transportar S.A.R. o Rei Alberto I dos Belgas, quando este, depois de visitar o Corcovado, se apeia no Silvestre e, desde aí, desce de bonde até ao centro do Rio.
Em 1983 há a tentativa, por parte da CTC - Companhia de Transportes Coletivos, que controlam o sistema desde 1963, de fechar alguns dos carros, alegando aumento da segurança dos passageiros e o aumento das receitas - um a cada cinco passageiros, viajando preferencialmente nos estribos, ignora solene e liminarmente a presença do cobrador! Quatro carros chegam a sê-lo, mas a forte contestação da população por eles servida apressa o Tombamento de todo o sistema, o qual passa a ser considerado como Património Histórico da Cidade e, como tal, protegido por lei - e impedidos de sofrer alterações! Aos poucos e com relutância da CTC, os carros voltam ao seu aspeto primitivo...
De setembro de 1997 até meados de 1998, de uma frota de 17 carros, apenas quatro - dois na linha enquanto dois ficam de reserva! - servem as duas linhas existentes, com uma extensão total de 6,16km...

Bilhete de loteriaCartão Telefónico
Os bondes na loteria...... e para telefonar.
Coleção Allen MorrisonTelerj
Atualmente pintados de amarelo, os bondinhos de Santa Teresa, cujo design atual data de 1953, já tiveram outrasdecorações: de 1896 a 1963 são verde escuro, e sob o controlo da CTC passam a ter duas cores - azul e prateado. Contudo, uma grande parte dos carros, principalmente os atrelados, nunca chegam a ser repintados. Em 1980 sãoamarelos pela primeira vez e em 83, com a tentativa de fechar os bondes, a CTC pinta-os de prateado e branco, com duas listas horizontais pretas e vermelha a toda a volta do carro; e em finais de 1993, a CBTU recupera para a CTC cinco bondes - que são pintados novamente de verde escuro!
Bonde nº102, 1963.04.26Bonde nº26, 1968.11.14
Em 1963.04.26...... e em 1968.11.14.
Fotos © Blickpunkt Straßenbahn
O sistema de bondes da Santa Teresa sobrevive hoje graças à iniciativa de alguns engenheiros e operários da companhia que, por iniciativa e conta própria e numa operção bastante arriscada, transferem para Santa Teresa a energia excedente da subestação da Praça Paris que, no passado, suprira a rede de trolleys. Isto dá-se por volta de 1960, quando a CTC assume a administração dos bondes da cidade; havia um prazo, até ao fim da década, para que a Lightdesativasse as duas subestações que alimentavam as linhas do bairro. Os funcionários temiam que, uma vez isso ocorrido, os bondes ficassem impedidos de circular.
Em 1975 é construída a atual Estação Terminal da Carioca. Os anteriores terminus, no Largo da Carioca, vêm sendo sucessivamente recuados, à medida que esta zona da cidade se vai urbanizando.
Diagrama lateral dos atuais bondinhos de Stª. Teresa
O final dos anos 80 e os início da década de 90 é um período crítico para o sistema: a falta de manutenção (e de dinheiro!...) põe seriamente em causa a continuidade dos seus serviços. Em 13 de dezembro de 1983 os bondes de Dois Irmãos deixam de ter os Bombeiros como ponto final: a falta de manutenção obriga a que sejam retirados dos carros um dos dois controladores existentes, impedindo-os de circular nos dois sentidos - logo de inverter a marcha no final da linha. Nessa data é colocada ao serviço o triângulo de manobras na esquina das ruas Almirante Alexandrino e Gomes Lopes, permitindo que os carros façam assim inversão do sentido de marcha.
Mas, mais uma vez mercê de fortes pressões - principalmente a dos habitantes do bairro - em 1993 são feitas obras de emergência, sendo restabelecida a circulação entre Dois Irmãos e o Silvestre, obras tantas vezes prometida - mas a execução adiada -; mas não será retomada comercialmente pois o facto de ser em via única dificulta a sua operação. Em 1995 os Arcos da Lapa são restaurados, quando também são colocados novos trilhos para os bondes, o que impede a sua circulação naquele trecho por vários meses.

Sobre os Arcos da Lapasrj20p.jpg (8707 bytes)Bonde nº 04Bondes nºs 10 e 14
Arcos da Lapa.Largo dos Guimarães.Rua Almirante Alexandrino.
Pela primeira vez desde a sua criação estão em curso obras de restauro do sistema de forma programada e sistemática: com um valor orçado em R$2,5 milhões (cerca de 350 milhões de Escudos), elas incluem a recolocação de cerca de 3km de carris - passado a extensão do sistema para os 9,47km que existiam na década de 60 - com a reposição do ramal para a rua do Riachuelo, e a duplicação da via para o Silvestre, além de outros que o uso e os anos assim recomendam. Incluído também está a recuperação - alguns a partir do chassis - de mais 13 carros, sendo três de apoio e manutenção, e oTaioba: com duas entradas, bancos nas laterais e vasto espaço no salão - que servia para transportar pequenas cargas - bem assim como a totalidade da rede aérea, e a passagem do Museu para o Depôt de Santa Teresa - que funcionava, desde que tinha saído da garagem de ônibus da CTC na Triagem, em 1980, numa pequena sala existente na Estação da Carioca. Este Museu possui peças de grande valor histórico, como uma coleção de tickets de passagem, uniformes de velhos condutores, equipamentos técnicos e de operção e vários modelos reduzidos de exemplares antigos de bondescariocas: o especial para casamentos, o de Assistência Pública, o dos batizados, o bonde de luxo, etc..
Estas obras visam a viabilização do sistema. Na realidade, atualmente ele é altamente deficitário - a despesa é cerca de 10 vezes a receita! -, contribuindo para isso, de entre outros, o facto de apenas 600 a 800 dos cerca de 4000 passageiros transportados diariamente pelos bondes pagarem a sua passagem (R$0,60 ~ Esc.55$00 = €0,22). Na tentativa de reduzir este índice, a Estação Terminal da Carioca foi já dotada de roletas por forma a que, quem nela entre (ou saia), seja obrigado ao pagamento da passagem do bonde, e será aumentado o policiamento o que, naturalmente, também aumenta a segurança dos utilizadores dos bondes. Por outro lado, prevê-se que, com estas obras de melhoramento e com oito ou nove carros em operação (os restantes ficam de reserva), o movimento possa dobrar.
E, num futuro que esperemos que não seja muito distante, prevê-se ainda o prolongamento do ramal do Riachuelo até à Lapa, fazendo um grande balão, com ida pela rua de Riachuelo e retorno pela Mem de Sá e Gomes Freire.

O Bonde da Copa França '98Bonde nº2  a caminho do Silvestre, em 1996.08.31
bonde 98 tendo como passageiros o time canarinho da Copa de Futebol França'98.bonde nº 2 a caminho do Silvestre
em viagem charter, em 1996.08.31.
Foto © Emídio GardéFoto © Allen Morrison
Também para o turismo se viram os bondinhos de Santa Teresa: por US$150,00 por hora os carros são alugados para transportarem até 32 passageiros pelas ladeiras e ruas do bairro para poderem ser apreciadas algumas das vistas mais bonitas e deslumbrantes do Rio - incluindo um passeio de quase três quilómetros por uma estrada rodeada de jaqueiras e no meio da floresta, até ao terminal do Silvestre. Um passeio que poderia ainda ser maior e melhor - com a visita ao Corcovado - caso se concretizasse o desejo de vários interessados, com a construção de uma Estação na Linha Férrea do Corcovado junto a esse terminal, permitindo assim a transferência dos passageiros do bonde para o trem e vice-versa - como fez o Rei dos Belgas...
Novos trilhos em RiachueloBonde no Silvestre
Novos trilhos na Rua Francisco Muratori, Riachuelo...... e o bondinho no Silvestre, com o trem do Corcovado passando ao fundo.
© O Globo On: Fotos de Pércio Campos e Ricardo Leone
No passado dia 16 de novembro de 1998 um bonde percorreu, em testes, o novo prolongamento até ao Silvestre; e as obras de colocação da linha aérea na Rua Francisco Muratori está concluída; porém, não se cumpriu a previsão oficial de que as ampliações iniciariam a sua operação até ao passado dia 20 de dezembro pois, apesar de oficialmente inaugurados os melhoramentos na véspera de Natal pelo cessante Governador do Estado, em ambos os casos tinham sido suspensas em 10 de dezembro as obras de instalação da via fixa - faltando poucas dezenas de metros em cada caso! - alegadamente por incumprimento das suas responsabilidades, quer por parte do empreiteiro que as estava a executar (não terá cumprido as normas técnicas estabelecidas), quer por parte do Estado (não terá cumprido o acordado em termos de pagamentos).
Entretanto, notícias (animadoras!) na imprensa anunciam a colaboração da Flumitrens para a conclusão das obras num prazo que deverá terminar no final do próximo mês de agosto.
Resta-nos aguardar a vontade dos homens, com esperança na Divina...

Administrados atualmente pelo Sistema de Bondes, órgão estadual ligado à Secretaria de Transportes do Estado do Rio de Janeiro desde a extinção da CTC em 1996, os bondinhos de Santa Teresa, além do facto de serem o último reduto dosbondes no Rio de Janeiro, sempre diferiram do outros bondes da cidade, de entre outros, por dois pormenores técnicos bem visíveis: na bitola, de 1,100m contra os 1,435m da restante rede, e no trolley - de vara e roda (de arco nos restantes).

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